PASSARELA DE CONTOS


29/06/2009


CONTO  DESCRITIVO

Obra: PASSARELA DE CONTOS

Autor e Historiador:Prof.RODOLFO ANTONIO DE GASPARI

                                      

  CAVA   DO   BURACÃO

Em área de terras, era o final de uma cidadezinha do interior. Até matagais existiam. Eram arbustos típicos e constituídos por região de campo. Não sabemos como os habitantes escolheram um grande espaço, que não nos importa no momento determinarmos o tamanho em perímetro ou área; talvez pela boa qualidade do minério de terra ou areia, propícia à construção de casas. Propositadamente, esse espaço começou a  ser cavado, formando aos poucos uma erosão provocada pelo próprio homem. Na época longínqua, carroceiros faziam do seu ganha pão no transporte da areia ou terra que se destinavam à edificação dos proprietários de suas casas próprias, bem mais abaixo, na considerada cidade, aglomerado mais em plena zona urbana. Com essa escavação deu-se origem ao popular e  chamado CAVA DO BURACÃO. Como o próprio nome dado, aquele espaço era realmente enorme, daí a sua qualificação em termo na sua forma aumentativa. Era realmente muito profundo, rodeado por altíssimos barrancos.  Nos dias de hoje, com o avanço das leis, seria uma enorme infração, considerando-se os cuidados na preservação do meio ambiente, o que em épocas passadas, nada disso se pensava para a conservação das necessidades vitais da natureza à sobrevivência dos seres vivos dos nossos tempos contemporâneos. E ai nasceu a conhecidíssima CAVA DO BURACÃO. Quando o homem saturou esse grande pedaço de terra, ali ficou uma área inútil, ociosa, até infértil! E a cidadezinha foi se desenvolvendo, estendo além da CAVA DO BURACÃO e sua localização passou a divisar o centro baixo para o novo bairro da cidade alta chamado VILA DOS VENTOS. Evidentemente ali naquela grande CAVA, com a chegada das chuvas do verão, aglomerava-se muita água parada, uma vez que, não se sonhava em saneamento básico populacional, tudo muito ao desleixo do primitivismo.  Logo, pela ausência de atividades variadas para o lazer do povo, começou a ser uma belíssima atração, onde nos barrancos aglomeravam muitas pessoas observando o grande volume de água ali depositada pelas chuvas, tornando um aplausível lago. Os considerados corajosos e grandes nadadores da cidade ali faziam as suas demonstrações de atletas, dotados às braçadas de travessia e mergulhos. Sim corriam grandes riscos de vida, com registro de afogamentos de adultos conscientes e crianças imaturas, quando não, ferimentos graves, entre pancadas nos destroços de tocos, tijolos, pedras, vidros... até possíveis contaminações de bactérias e insetos danosos pela podridão da água parada, quando as chuvas paravam e o sol escaldante voltava. Mas nada disso importava aos aventureiros, o importante era se destacar e participar pelo dom da coragem. Até realização de importantes campeonatos de natação foram historicamente registrados. E, a tal CAVA DO BURACÃO tornou-se um “CENTRO TURÍSITICO”! Pouco mais tarde, com gestões mais experientes de alguns prefeitos passados da época, fizeram alguns recursos, mesmo simples com manilhas de barro queimado, dando oportunidade para as grandes chuvas se escoarem pela parte baixa ou de entrada e saída por uma importante rua chamada de Capitão Lourenço Jardim. Foi extinta a primeira atração do grande lago artificial da CAVA DO BURACÃO formada anualmente pela própria natureza.  Assim mesmo, ela não ficou esquecida ou isolada na sua ociosidade. Veio a criação de um improvisado “campinho de futebol” e grandes competições futebolísticas de várzeas marcaram época. Depois vieram as festas juninas com hasteamento do mastro dos “Santos Festeiros Juninos”. Comícios políticos tiveram o seu espaço. A CAVA DO BURACÃO era popularmente conhecida! Os barrancos serviam de escorregadores às crianças da época; os mesmos tornavam-se lisos pelo uso dos “bumbuns” forrados por papelões de caixas ou saco de juta em estopa. A CAVA DO BURACÃO não parou nisso, passou a ser usado na locação de parques infantis ambulantes que passavam pela cidade. Serviu de descobertas ao povo humilde, apagado, inculto pelas poucas oportunidades de aproximação de invenções e criações advindas dos grandes centros. Passaram  a conhecer a disputada  roda-gigante, o carrossel, o táxi-maluco, tiro ao alvo, jogos de argolas, etc. Um desses parques trouxe a mulher gorila (mulher que virava esse mamífero); passavam-se horas afinco na fila para conseguir o ingresso para ver tal atração que com medo e gritarias não deixava de se adquirir coragem, atraindo o povo pela curiosidade inovadora, questionada pelos truques, alguns descobriram a verdade: jogo de luzes adicionados por espelhagem, outros acreditavam no sobrenatural, e que mais agitava pelo fato de um campo santo se localizar  do lado, achavam que a moça (artista) era tomada por espíritos demoníacos que vinham do próprio cemitério. Crianças mesmo sob a recomendação ou impedimento dos pais teimavam e depois passavam dar trabalho aos progenitores durante à noite com  a vinda do sono. O trem fantasma foi outra grande atração, proporcionava ir ao encontro de figuras horríveis, fantasmagóricas, pré-históricas, caveiras, esqueletos, defuntos saindo das suas próprias urnas mortalhas... Assistia-se principalmente pessoas do sexo feminino saírem desmaiadas do interior daquele trem monstruoso. Muitos, muitos... parques tiveram a sua passagem nesse mesmo local. Tablados eram armados para festivais de violeiros, calouros, teatros, capoeiras, catiras, festas juninas... Por se localizar na parte mais alta da época e em processo de desenvolvimento urbano, como teste foi instalada uma torre experimental de rádio amador, um invento que surpreendeu e atraiu milhares de pessoas. Sem contar com diversos circos que ali se instalavam. Um que marcou muito foi o O   

CIRCO TEATRO IRMÃOS NOGUEIRA. Este permaneceu por quase um ano na cidade nesse espaço chamado de CAVA DO BURACÃO. Os elementos dessa família circense tornaram-se tão populares e convividos com a população que os mais jovens e solteiros contraíram matrimônio com filhos das famílias da pequenina cidade. Alguns habitantes seguiram com o circo, outros do circo permaneceram na cidade, casando, constituindo família com os filhos (as) da terra. As peças teatrais que artisticamente apresentavam eram lindas, repetitivas, mas tinham um índice elevado de freqüência. A peça que teve o seu marco foi “O Ébrio”, uma adaptação de uma música MPB. Grande sucesso da época interpretada pelo cantor Vicente Celestino. O artista considerado, o galã da empresa circense chamava-se Wilson Nogueira, solteiro, disputado pela beleza singela e talento artístico, se quisesse seria o homem de infinitas moças da pequena localidade interiorana. Esse artista contraiu matrimônio com uma jovem de família tradicional da cidade. A despedida desse circo foi muito formal ela patrocinada pela Prefeitura Municipal, deixando muitas lágrimas de tristezas e fortes recordações. Outros tantos circos também passaram montando suas instalações nessa mesma CAVA DO BURACÃO. Muitos habitantes passaram conhecer espécies de bichos selvagens através desses circos. Grandes desfiles de cavalos e bois de raças raras ou comuns eram realizados nesse mesmo espaço com exposições ou vendas através de leilões concorridos entre participantes de toda região e até fora do estado. O ambiente era muito bem preparado com corredores de tábuas, de estábulos, com enfeites de bandeiras, bexigas e outros. Nesses grandes acontecimentos o povo se transformava em forma de multidão; ônibus vindos de diversos lugares transportando proprietários ricos e fazendeiros. Em datas festivas e de grandes comemorações, a exemplo do Natal, dia do Santo Padroeiro, ali eram feitas as queimas dos grandes fogos, entre artifícios coloridos, salvas estrondosas, morteiros e rojões. Passavam por ali Circos Rodeios, chamados de Touradas, os quais davam trabalho aos proprietários, porque devido a formação física do local, as pessoas dos barrancos conseguiam assistirem os espetáculos dos touros bravos e cavalos de montagem, uma vez que, esses circos eram descobertos devido ao gênero e evidentemente de graça sem a compra de ingresso, assistirem de “camarote dos barrancos”. Durante as festividades por ocasião da Festa de Aniversário da Cidade, o grande evento era a participação das demonstrações hípicas da Cavalaria Oficial do Exército. Empolgava muito as pessoas vendo os belos e bem tratados cavalos de montaria com os oficiais especializados em seus trajes militar. Anualmente no Dia da Criança havia distribuição de brinquedos, doces, sorvetes, bexigas à petizada com diversos torneios e competições como: corrida do saco, bandeirinha, pau de sebo, corrida da colher com ovo, braço de ferro, futebol... tudo patrocinado pela Prefeitura Municipal.  Até a festa de confraternização, regada com abundância de churrasco e cerveja oferecido ao povo em geral, após as vitórias eleitorais à concorrência do cargo de prefeito eleito, a cada quatro anos, eram feitas no local da CAVA DO BURACÃO. Quem faturava bastante eram os populares vendedores de pipoca, amendoim, maçã do amor, guarda-chuvinha de balas, biscoitos, sorvetes, brinquedos diversos... As festanças eram um meio enriquecedor e lucrativo aos vendedores ambulantes. Alguns anos ali era edificado o grande altar para a Missa Campal de Corpus Cristhis da religião católica sem contar também com os cultos evangélicos que eram comuns em quase todas as manhãs dos domingos. As crianças quando desses eventos se aproximavam dessa CAVA DO BURACÃO observando as montagens, saciando a curiosidade, quando não, ali iam para as brincadeiras de bola, piões, rodar arcos, pneus, jogos de bolinha de gude, soltar pipas, pular cela, etc. A CAVA DO BURACÃO tinha MIL E UMA UTILIDADE! Ela ficou marcada como um MITO, responsável por entretenimentos, registros, tradições e sobretudo HISTÓRIAS e ESTÓRIAS. Ele ainda permanece vivo, tanto pela sua origem como também nunca se cogitou aterrá-lo. Preservando essa enriquecida tradição há quem denominou suas fantasias comerciais com homenagem a esse local, dando o nome dessa CAVA até mesmo como logotipo. Realmente, no ontem, um verdadeiro BURACÃO, famoso pelos eventos realizados, deixando no hoje muitas retrospectivas de acontecimentos festivos, aplausos, alegrias, confraternizações, desenvolvimento cultural... todos que marcaram época para os registros do presente, quando do gatinhar da CAVA DO BURACÃO até os dias contemporâneos de uma emancipada cidade de um interior. Hoje, não mais um palco livre, substituído pelo progresso do espaço físico feliz e valioso dos filhos da terra. Representa a CAVA DA RECORDAÇÃO. Sempre será o “arquivo” de grandes passagens e a ETERNA CAVA DO BURAÇÃO, o PALCO DE ARENA, LIVRE, de um PASSADO DA SAUDADE!

             

Escrito por Rodolfo-rudi- às 11h56
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FESTEIRO

CONTO  DESCRITIVO

Obra: PASSARELA DE CONTOS

Autor e Historiador: Prof.RODOLFO ANTONIO DE GASPARI

                                                 

     F  E  S  T  E  I  R  O

Na direção oeste da pequena AREIAS DO OESTE, há muitos e muitos anos passados, muito distante do povoado, haviam campos bem fechados. Denominavam como a região do ABACAXIZEIRO.  Solo propício, arenoso para este plantio. E, para se chegar ao ponto desta plantação, deveria andar por quilômetros. Sim, tinham alguns habitantes ou principalmente agricultores que preenchiam aquela região. Por trilhos, rodeados de fortes campos que iam adentrando mato adentro, até que se atingisse a cultura dos ABACAXIS. Para que não se perdesse o caminho, saindo da cidade, aliás, cidadezinha, tomava-se rumo pela Rua dos Abacaxis, para se atingir o ABACAXIZEIRO.  Dizia-se que esta fruta era de boa qualidade; os bem amarelos, embora fosse menos preferido os de polpa branca. Mas,  atraia o povo, tanto para as compras e mais ainda, pelo lazer, comum, de se caminhar entre os campos e matas, uma vez que naquela época não haviam outros recursos para os entretenimentos dos dias de folga das pessoas da cidade.  Pela própria constituição do solo, esta região também era conhecida como AREIA BRANCA.  Realmente, quando se atingia as proximidades dos ABACAXIS, pisava-se em macias areias, quase a exemplo de praia, bem finas, branquinhas, dando para os pés afundarem-se no meio delas.  Tanto que, quem viesse depois, percebia que pela frente, já tinham outros transeuntes, pelas pegadas dos rastros humanos e até de animais, como cavalos e cães.  Era uma grande atração caminhar por aqueles lados.  Mulheres, mais precisamente, as jovens colhiam flores campestres de variadas cores.  Como dito popular as mais idosas preferiam as lilases e amarelas; ofereciam aos seus oratórios, comum por existirem nos quartos dos casais de todos os lares. Aquelas na busca de um parceiro preferiam as de cores brancas, achavam ir ao encontro de  bons presságios para atraírem os seus cupidos.  Felizes eram aquelas que conseguissem a raridade dos lírios do campo, espécie mais duradoura, devido aos seus fortalecidos troncos.  E a caminho de AREIA BRANCA ou do ABACAXIZEIRO, muitas famílias iam nos seus finais de semana ou feriados! Os infantis ficavam felizes e convidavam os mais próximos coleguinhas, quando se programava este passeio; muitas mães se responsabilizavam pelos filhos vizinhos, mais chegados.  E tudo era bem idealizado, como se fosse realizar um verdadeiro piquenique: lanches, doces, sucos, bolos... eram uma festa ao ar livre para este percurso.  Até alguns imprevistos aconteciam entre as crianças mais levadas e desobedientes a exemplo de pequenas ferpas, espinhos ou minúsculas pedrinhas que se aglomerava entre a areia muito fina. Observava-se uma sadia convivência no relacionamento das famílias, amigos e da própria pequena sociedade em si.  Muita pureza, ausência de maldade, criminalidade, malícia, sexualidade, drogas... Reinava muita paz interiorana, embora já se soubesse de tantos desvios sociais dos grandes antros, porém, tudo muito distante desta vida prazerosa e feliz.  Quando se chegava ao cume do ABACAXIZEIRO, havia muita admiração pelo esmero plantio e muitos cuidados, embora conscientes de ser um produto de poucos requintes para o seu trato e desenvolvimento.  Muitos dos proprietários rurais eram já familiarizados aos visitantes, na qualidade de parentescos como irmãos, sobrinhos, primos, afilhados ou simplesmente velhos amigos ou conhecidos.  Eram recolhidos para dentro, recebendo todas as cortesias: assuntos diversos, notícias da cidadezinha, velhos amigos falecidos durante aqueles últimos dias, muitas vezes até o propósito daquela visita, convite de casamento do filho ou filha, que era formulado muito verbalmente, não tinham ainda os recursos dos convites à base da imprensa. E, entre um e outro assunto, saiam os petiscos que gentilmente eram oferecidos: chás, café das comadres; nada mais era aquele “passadinho na hora”, doces, bolos, bolachas, não poderia faltar o valioso e apetitoso suco de abacaxi, mesmo sem gelo, porque geladeira ainda não existia, tão menos, energia elétrica.  Eles (abacaxis) eram ralados, depois colocados na água pura e potável das minas, em seguida bem chocalhado, coado em pano, brim cru de sacaria e servido em canecas transformadas de embalagens de gêneros  diversos, com solda de suas asas.  Nada de vidro e etiquetado existia!  Na saída destas visitas, ninguém saia sem levar um ABAXAXI, o mais bem escolhido, prontinho para ser consumido através do paladar bem doce. Os proprietários daquela época, lá resolveram marcar aquela religião, através de sua fé, predominada pelo catolicismo.  Edificaram em conjunto uma CAPELA, que era chamada  de  SANTA CRUZ. Primeiramente, simplesmente, uma SANTA CRUZ, sem a escolha de um patrono em nome de um SANTO. Ela ficou popularmente conhecida por SANTA CRUZ DO ABACAXI.  Se antes a região do ABACAXI era muito disputada para as visitas informais, agora passou a ter um objetivo maior, principalmente pela nova existência da igrejinha. Começou atrair o povo, voltado à fé, aos beatos que comumente iam celebrar terços ou rezas.  De um a outro culto de adoração da SANTA CRUZ  DO ABACAXI, tornou-se tradicional os terços mensais, em todo dia três de cada mês.  Era uma multidão que para lá se dirigia.  Por ser à noite os trilhos que conduziam àquela região eram iluminados por lampiões, velas e até lamparinas.  Uma verdadeira peregrinação de fé, uma procissão mensal aguardada por grande parte da população.  A cada terço mensal era escolhido um FESTEIRO. Ele sorteado após o término das orações.  Cada participante, adulto ou criança, colocava-se em um saquinho de pano, o seu nome, e a expectativa do desejo de ser premiado como FESTEIRO era grande, uma atração Acreditava-se ganhar uma graça por ter sido sorteado.  Numa destas vezes foi sorteado como FESTEIRO, ZÉ DA BOTA, apelidado assim por usar constantemente BOTAS elegantes, de bom gosto, variadas... compradas constantemente por seu pai. Ele, ainda muito criança, com oito anos de idade, já revelava dotes de um grande cristão, praticante do catolicismo, onde no papel do FESTEIRO DO MÊS foi coincidido o dom de que lhe era peculiar como uma criança religiosa; exercia a função de coroinha das missas da única matriz da cidade. Ao FESTEIRO DO MÊS cabia lavar a SANTA CRUZ, arrumar o humilde altar, enfim deixar o ambiente preparado para o culto do terço que acontecia todos os “terceiros dias” de cada mês às vinte horas. E, ZÉ DA BOTA, com esmero arrumou a capelinha daquele mês de junho. Sua mãe confeccionou uma linda toalha branca com bainhas de renda de algodão. Foram levadas belas flores, cultivadas nos canteiros da própria casa do FESTEIRO, por sua avó materna. Vasos de cerâmica vermelha foram levados bem floridos como detalhes da arrumação. A SANTA CRUZ DO ABACAXI ficou muito linda! Também cabia ao FESTEIRO DO MÊS servir biscoitos, bolachas, bolos... tudo regado com licores. Durante a realização daquela  liturgia através do tradicional terço, o  FESTEIRO segurava a CRUZ do pequeno altar e tinha o seu papel de destaque bem à frente do rezador. Nesse festivo dia com exceção, ZÉ DA BOTA não segurou a CRUZ porque ele próprio foi o PUXADOR DO TERÇO, já numa tenra idade mostrava o seu dom de beato santeiro.  Uma vez por ano, os proprietários agrícolas daquela região do ABACAXIZEIRO promoviam uma grande festa com celebração de missa, quermesse com leilões de bovinos, suínos, caprinos e aves. E assim naquele pedaço de uma terra bem interiorana ficou por décadas presa às grandes tradições, marcando uma época muito feliz, tanto como meio dos elos de amizade, solidariedade, companheirismo, comunicação, devoção, caridade, campanhas filantrópicas e principalmente uma família interiorana como exemplo de uma imensa união fraterna. Mais tarde o ABACAXIZEIRO foi trocado pelo progresso. Passou a ser um grande bairro, conservando a presença de famílias humildes e devotas. Tornou-se um centro urbano até mesmo, industrial. Trouxe empregos, estabilidades de sobrevivência às famílias, ali inseridas. Denota-se um núcleo populacional crescente, evoluído, preparado para as novas gerações. A CAPELA tendo como patrono a figura marcante de SÃO LÁZARO que para os tradicionalistas fundadores de uma comunidade ainda preservam suas tradições remotas... sempre será SANTA CRUZ DO ABACAXI, porque ela faz parte da saudade de um povo acolhedor interiorano.    

                                            

Escrito por Rodolfo-rudi- às 11h19
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24/06/2009


POUCO ANTES DA PRIMAVERA

CONTO

PASSARELA DE CONTOS

Autor: Prof. Rodolfo Antonio de Gaspari

                                      

 POUCO ANTES DA PRIMAVERA

   

Os meus olhos foram desdobrados. Parecia que eu já sabia ou conhecia tudo aquilo. Minha audição permanecia aguçada, queria ouvir mais e mais... Eu estava completamente incorporado àquela história de amor. Raro resplandecer, um toque lindo de emoção, com cânticos da alma levada ao coração. Eu viajava mentalmente, passo a passo, com capítulos de uma grande obra literária. Silenciosamente eu ouvia com atenção ou o historiador narrando:  - DANTI vivia solitariamente envolto na sua estagiada solidão.   O seu pretérito fora radiante, sonhador, bem vivido, até muito amado. A sua viuvez o levava distanciar de tudo e de todos. Somente a lembrança do passado fazia-o armazenar recordações que o vento soprou e com poeiras formaram-se nuvens no seu vendaval de tristeza. Tudo parecia ser um amor; depois de tudo, somente um falso conformismo por uma tremenda perda, onde a eternidade deixa como saldo, sem saída, àqueles que permanecem vivos numa sofrida dor. DANTI caminhava sem perceber as margens da vida, imaginando, mesmo suspirando, nada mais haveria de ter a sua razão de ser, somente viver por viver!  CATARINE na sua cidade interiorana se fazia ainda esperançosa, embora inconformada pelas decepções que o cotidiano da sua vida a pregava. Saída de perdas, depois de sonhos formulados à dedicação como doação, de bem querer e amar. Estava também com o coração fechado, inconformada pelas inúmeras quedas dos seus relacionamentos.  Porém, ainda se esperançava pela chegada futura de um “anjo” que a fizesse acreditar que no amor existe intensidade e reciprocidade.  De um lado DANTI procurava esquecer um passado considerado feliz; por outro, CATARINE com feridas abertas de sofrimento, almejava que elas fossem cicatrizadas.   O tempo passou rapidamente, indício de muitas flores anunciavam canteiros floridos, exalados por ricas fragrâncias.  Era “POUCO  ANTES  DA  PRIMAVERA” daquele ano vigente.   À noite estava quente, o movimento de uma cidade de porte médio, para grande, chamada de SÃO SEBASTIAN agitava os transeuntes; cada um programado para o seu destino de entretenimento e lazer.  Opções diversificadas faziam do meio social, acontecimentos agradáveis do destino do ser humano para o infinito do horizonte.  Cada “eu imaginário” na retrospectiva corria, outros felizardos, decididos, andavam juntos de mãos dadas.  Incluídos nessa multidão, entre elevados edifícios, engenhados para o alto em direção do céu, dois seres sozinhos caminhavam com o outrem: DANTI  E CATARINE.  Aquela casa noturna, considerada mais uma “gaiola” reluzia de multicores entre luzes acesas; um jogo às vezes estático batia nos corpos e faces dos participantes, moldurando um ambiente alegre com som estridente, quase agredindo a audição daqueles que por ali se entretinham.  Muitos apresentavam tristeza, melancolia, vazio... bem como, outros na malícia da noite ou pela própria nostalgia do meio, ansiavam por companhia ou um amanhecer bem a dois... ali ou lá fora!  DANTI foi quem chegou primeiro naquele local.  Socialmente se arrebanhou aos afins daquela noite.  Não estava tão disposto àquele ambiente, mas a força do destino, o fazia presente de corpo e alma.  Quem sabe presságios anunciados!   CATARINE chegou pouco depois, vinha com a essência pura do momento próspero, talvez a luz daquela casa refletida na abertura do seu “eu superior”.  Os olhares se cruzaram nos primeiros instantes.  DANTI e CATARINE numa autoexclamação: - É VOCÊ MEU AMOR! Para CATARINE, os olhos claros de DANTI cruzaram à primeira vista, num encanto de almas, quase gêmeas, mais afins.  Para DANTI numa perplexidade veio um espontâneo “OI”...,  prolongado como se traduzisse: - EU ESTAVA ESPERANDO POR VOCÊ!...  Os olhares não se contiveram e de repente, um na frente do outro, consumaram um programado encontro, não pelo acaso, e sim pelo reencontro pré-estabelecido.  Aquela casa de diversão figurativa desapareceu.  Tudo a partir daquele momento direcionava para outras entranhas...  DANTI e CATARINE fizeram-se de estrelas da noite; os personagens principais de uma grande história de amor.  Entre os dois, saia uma luminosidade nunca usufruída ao sabor do bem estar e da reciprocidade eminente, profunda... daquele encontro.  DANTI foi quem mais falou.  Apresentou suas ideias e ideais, até mesmo os espinhos do passado às condutas para uma proposta a dois, ela sadia, verdadeira, transparente, regadas com AMOR.  CATARINE, pouco falante, seivou as palavras ouvidas, mostrando sua sensibilidade e almejos para uma caminhada futura a dois.  Não havia como desfazer de um pacto certeiro, eficaz, adequado, aguardado para a cumplicidade do sentimento, numa demonstração de pureza grande e rica descoberta a dois.  DANTI concluiu consigo mesmo que aquele era o verdadeiro amor, o mesmo não vivido nas formas do ontem.  Ele estava nascendo, não renascendo, bastava adubá-lo.  O coração batia fortemente, o seu corpo sentia acalantado.  Ambos não viram as horas transcorrerem, tudo era muito perfeito, um presente adquirido pela experiência à entrega de um, em dois.  Patenteavam a verdade que o “amor existe...” basta analisá-lo pelos requisitos com que cada um desenvolve pela sua própria evolução... o esperar pelo momento da descoberta.  Ainda não era primavera, mas flores já se abriam cruzando entre colunas e arcos, alvas pétalas na luz celestial que fluía entre DANTI e CATARINE.  Prometidos mutuamente, o casal, de mãos dadas, saiu dali, deixando para trás luzes, assumindo a verdadeira paz a dois.  Atravessaram uma grande praça.  Despediram-se!  DANTI ficou e CATARINE partiu!  Esse AMOR AINDA SOBREVIVE de paixão. Ambos caminham entrelaçados no destino que Deus assim quis e jamais será desfeito pela própria natureza, uma pura criação, regida de leis sábias e superiores.  “POUCO ANTES DA PRIMAVERA”, caminhos floridos se cruzam como arcos direcionados ao céu da esperança, porque DANTI e CATARINE representam uma GRANDE HISTÓRIA DE AMOR! 

    

                                                                   

 

 

Escrito por Rodolfo-rudi- às 21h04
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RIO BONITO

CONTO  DESCRITIVO 

PASSARELA  DE   CONTOS

Autor: Prof. RODOLFO ANTONIO DE GASPARI

                   

                                  

 Sorte  Sorte  R I O     B O N I T O 

                                         

Numa travessia pelo tempo, com tempo de retroceder aos velhos decorridos dias, estampa-se em nós o PASSADO. Ao mais sensível, num gesto sutil, emocionante, carregado pelo vento do ontem, a brisa do hoje, lembrança viva da nossa terra, do nosso povo... Pois bem, outrora tudo verde na pastagem branda do VALE DA MATA, um meio ambiente invadido pelas cheias e vazantes do rio dos meandros, chamado RIO DA MATA. Capituvas vastas, cruzadas nas várzeas, no lodo habitado por cobras venenosas, rãs, cágados... Pássaros, então em enormes revoadas.

                                      

Todos tinham orgulho do imenso e carroçável RIO DA MATA.  Um simples córrego também almejava beijar as águas ainda sem poluição e contaminação.  Ir abraçar um gigante seria amparar um curso de vida num habitat natural, fluvial.  Desejoso, simples, meio raso, estreito, entre margens de árvores frondosas, lá está o RIO BONITO.  Ele vem do município de uma cidade vizinha ao oeste, Capituvaia. Desce mansamente, atravessando áreas rurais, sítios e fazendas de antigos proprietários.  Diz os entendidos que ele na sua nascente, curto decurso é rasinho, com límpida areia fina, a caráter de uma natureza química, própria para rebocos de construções.

       

Altino, apelidado de TINO, ainda um menino, já sabia da existência desse pequeno rio. O seu pai comentava muito das espécies de peixes que ele abrigava; os característicos lambaris de vara curta, anzóis minúsculos, que fritos e torradinhos serviam de aperitivos, acompanhados das “batidas” de cachaça com limão e muito gelo. Que delícia deveria ser!  Pela tradição, esse bonito riozinho, era considerado o ABC dos futuros pescadores de PROCOLÂNDIA (cidade que o RIO DA MATA cortava em toda sua extensão), mesmo aqueles que em dias futuros seriam amantes ou amadores da pesca. Os pais levavam os seus filhos homens, ainda na tenra idade para a iniciação do mundo da pesca ou mesmo da pescaria. Ensinavam a qualidade da vara de pescar, mesmo rústicas, naturais, resistentes, de bambu, específicas de pesca; também sobre a linha denominada de “indiana” que se prendiam os anzóis, até a isca viva da minhoca, buscada na própria margem do rio, em lugar bem úmido pela proximidade das águas correntes.  Infelizmente ALTINO -TINO- não teve essa oportunidade, seu saudoso pai, nunca o levou para as aulas de pesca, porque os seus afazeres nos momentos de folga eram dedicados à pesca, mais voltada ao profissionalismo, desde aquela época já com sofisticadas armas de pesca.  Logo, jamais deixaria do gigante RIO DA MATA para se dedicar algumas horas num minúsculo rio, junto do seu filho TINO. Esse aprendeu pescar, pouco mais tarde, convivendo com outros demais pescadores, à beira do rio, através de uma ativa observação, paralela ao seu próprio esforço.

                                                       

E, o riozinho RIO BONITO, era muito comentado! Ele também serviu de escola de natação. Era comum os meninos acompanhados por responsáveis adultos, debutarem os seus primeiros mergulhos e braçadas contra a correnteza.  TINO aprendeu nadar, bebendo muita água nesse histórico riacho. Depois das aulas, junto com os seus coleguinhas vizinhos, iam fugidos de suas mães, sem medir os perigos e conseqüências.  Houve, lá um dia, que a mãe de TINO percebeu!  O sol estava escaldante por demais; TINO de pele muito clara “torrou”, voltou com o corpo visivelmente de quem estivera por longo espaço de tempo exposto ao sol e pele enrugada pela permanência dentro de muita água. Levou algumas chineladas!  Sobretudo aprendeu nadar sem se aprimorar a um grande nadador, a exemplo de muitos outros dessa região ribeirinha. Certo dia, num dos mergulhos, bateu a testa num toco e ficou ferido. Por mais que TINO quisesse insistir, não deu para mentir: ser uma briga, pedrada... porque inocentemente e imaturo esqueceu que seu calção estava ensopado de água.  Ficou terminantemente proibido e de castigo.  Somente depois averiguou que sua mãe tinha muita razão, pelo apreço materno, quando por lá, nesse riozinho registravam constantes óbitos por afogamento de crianças, ocasionados pela imprudência e inexperiência, junto dos perigos entre as águas de um rio, por menor que ele pudesse ser.  TINO foi perseguido, sondado por longas tardes até que aprendeu obedecer a sua progenitora.

            

RIO BONITO ainda vive, aliás, sobrevive com muita pobreza, dificuldade. Ele pobremente corre até sua foz no RIO DA MATA como seu principal afluente. Se antes era raso, hoje considerado uma “valeta”, a exemplo de uma enxurrada, mas a natureza não desiste, mesmo sabendo que continuará vítima do criminoso homem que devasta, invade, depreda o meio ambiente. Há  quem hoje, ainda passe sobre a sua ponte, em direção aos muitos recantos da zona rural de PROCOLÂNDIA, para,  viaja pelo tempo... deixa cair lágrimas sobre as suas águas, almejando que elas aumentem e que infelizmente secam no dia a dia.  RIO BONITO, mais um córrego, nos dias de hoje ainda derrama suas humildes  águas no RIO DA MATA, deixando lá no ontem um pedaço da sua história!

 

         Sorte       Sorte        Sorte

 

 

 

 

Escrito por Rodolfo-rudi- às 20h27
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